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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Oração póstuma

"Cada país tem o discurso de Gattysburg que merece:
'Há 488 anos nossos Portugais fundaram neste continente uma nova subnação, baseada na opressão do índio e do negro, dedicada à extração de minérios e outras matérias-primas, e amparada no princípio de que os homens não são iguais e que, decididamente, há cidadãos de primeira e terceira classe. Agora estamos empenhados numa guerra civil para verificar se tal subnação - como outras, assim concebidas - pode existir e perdurar. Estamos aqui, reunidos num campo de conflito dessa guerra. Viemos aqui dedicar uma parte desse campo como último lugar de repouso - uma colônia de férias - para aqueles que tiraram tantas vidas a fim de que essa subnação possa sobreviver. Mas, num sentido mais amplo, não podemos consagrar, nem podemos santificar, esse campinho de futebol do Morro da Providência. Os bravos que mataram aqui já o consagraram de maneira definitiva, muito acima da nossa capacidade de dar ou tirar. Todo o mundo subdesenvolvido notará e lembrará para sempre o que dizemos aqui, glorificando e imitando o que esses bravos fizeram. Quanto a nós, os que conseguiram sobreviver, de um lado e de outro, devemos reconhecer os nossos lugares (há os que nasceram para mandar e os que nasceram para obedecer, os que nasceram para gozar e os que nasceram para sofrer) e dedicarmo-nos à obra inacabada que as polícias federais já levaram tão longe. Decidamos aqui que elas não mataram em vão, que esta subnação jamais tornará a cair numa democracia - e que o governo, antepovo, sobrepovo e contrapovo, não desaparecerá da face do Planalto'". (Millôr Fernandes, 1971)

Alguém duvida da atualidade do que está aí em cima?

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