(Aviso: esse texto é uma espécie de ego trip, com caráter quase exclusivamente autobiográfico. Quem não gosta desse tipo de texto, ou da forma como escrevo, sinta-se a vontade para ler outra coisa. Pessoalmente, recomendo qualquer obra do Eric Hobsbawm. Fica a dica. Obrigado.)
Desde que tive contato com o PSTU, seus militantes, materiais impressos, panfletos, sites, blogs e outros meios de divulgação, algumas coisas me chamaram a atenção acerca dos conteúdos que lá estavam. Primeiro: notícias – muitas notícias – sobre fatos, cenários, análises do país, do estado e do mundo, e os assuntos destas eram fartos. Era só escolher: política, economia, cultura, divulgações, cartas e notas (tanto de apoio quanto de repúdio), enfim. E, minha nossa, quantas siglas! Segundo: de vez em quando, nesses materiais, estavam entrevistas, grandes ou pequenas, com nomes de referência - ou fazendo referência a grandes nomes – do partido e da luta de esquerda em geral no âmbito local, nacional e mundial. Falo de Nahuel Moreno, Léon Trotski, Valério Arcary e por aí vai.
Acho que agora cabe uma apresentação mais formal e dizer o que vim fazer aqui. Meu nome é Everton Rocha, estou com 26 anos e sou formando – graças a Deus! – de bacharelado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Já tenho uma curta, porém sincera, trajetória de militância estudantil pela universidade. Aliás, iniciei nas lutas num dos embates mais ferrenhos que existem na militância estudantil: na disputa do DCE de uma universidade federal. Mal amparado pelo meu para-quedas, compus uma das chapas concorrentes. E, pé-frio que sou, ficamos num honroso 3º lugar. Já conhecia muitas das pessoas que faziam parte da chapa – que depois das eleições se tornou um coletivo, o Pode Chegar –, outras eram meus colegas, e foi nela que soube alguns deles eram militantes da juventude do PSTU. Só pra situar, isso foi mais ou menos entre setembro e novembro de 2008.
Bueno, depois das férias os trabalhos do nosso coletivo continuaram, sempre na árdua (e nem sempre vitoriosa) missão de defender a educação pública, gratuita e de qualidade dentro da universidade. Foram campanhas pela ampliação dos RU's, contra o aumento das tarifas das passagens de ônibus, contra o desmantelamento da educação promovido pela governadora Yeda Crusius, enfim, foram várias lutas. E nelas fui conhecendo outras pessoas de luta também: diretórios acadêmicos, coletivos, grupos secundaristas, professores, sindicatos, uma galera. E assim chegamos ao divisor de águas: o CNE – Congresso Nacional dos Estudantes, que aconteceu no Rio de Janeiro em junho de 2009.
Pra participar, deveríamos – e esse “deveríamos” abarcava nós do coletivo, estudantes secundaristas e de vários diretórios acadêmicos – fazer “a” campanha financeira. E, muito me orgulha dizer, conseguimos o montante necessário, fizemos nossas malas e tocamos para a Cidade Maravilhosa. De ônibus, claro. O evento foi um sucesso, contou com 2 mil estudantes do país inteiro, debates e GD's todos os dias (com pausa para o almoço), palestras e, ao último dia, a plenária final, que votou pela criação de uma nova entidade que deveria, ao contrário da UNE, representar os estudantes em suas demandas, a ANEL. Eu estava exultante (Vitória!) e, ao meu lado, muitos estudantes militantes do PSTU também estavam.
De volta à Porto Alegre, conforme as lutas do coletivo continuavam e a convivência com o pessoal do partido aumentava (inclusive com os secundaristas), fui tomando conhecimento de alguns dos aspectos do seu funcionamento, como militavam, como faziam pra se manter e, principalmente, porque lutavam. E confesso, me identifiquei com muitas das bandeiras ideológicas levantadas pelo PSTU. Eu acreditava numa mudança qualitativa na nossa sociedade era possível – mais do que isso: provável – e que tal mudança seria consequência de uma tomada de consciência da maioria da população. Já senti na pele – e no contracheque – o tapa da mais-valia, tendo de trabalhar nove horas quando meu contrato era de seis. E vou ser bem sincero agora: o pessoal do partido me “namorava”, dizendo que seria interessante eu, enquanto pessoa pensante e crítica, compor o quadro da juventude do partido.
Bom, agora eu explico o porque de eu dizer “não” quando me convidaram pela primeira vez a fazer parte do partido. Tem a ver com o “Everton historiador”: enquanto um cara que compõe uma comunidade científica e, por isso, pensa e questiona crítica e cientificamente o passado, meu medo era o de meu trabalho ser desacreditado frente a uma comunidade que presa enormemente uma produção, a rigor, neutra, e dessa forma não ser levado a sério. Um outro fator que contribuiu tem a ver com a própria militância. Quem está lá na luta sabe: uma grande parte das pessoas que atua no movimento estudantil é simpatizante ou filiado a partidos políticos – a maioria delas na vanguarda dos movimentos. Muitas vezes, em panfletagens de campanhas para eleições do DCE da UFRGS eu ouvi um sonoro “não voto em partido!”. Creio que foi uma forma de eu tentar valorizar a militância estudantil me mantendo como independente. Por essas e por outras decidi dizer: “por enquanto não, obrigado.”
Pois bem. À ocasião das comemorações, em Porto Alegre, dos 15 anos do PSTU (sim, eu fui convidado) assisti a uma (longa) fala do Valério Arcary, com o seu jeito simples, calmo, bem humorado e irônico de relatar as experiências que levariam à formação do partido. E lá pelas tantas ele diz, não lembro direito sobre o quê: “àquela altura dos acontecimentos, a gente não sabia direito o que estava fazendo, mas tinha plena convicção de que era pela mudança”. Estaquei. O Arcary – um cara que participou da Revolução dos Cravos em Portugal, lutou contra a ditadura no Brasil, ajudou a fundar o PT e saiu dele pra fundar o PSTU, e escreveu um monte de coisas (algumas delas que eu li na faculdade) – não sabia o que fazer. Acabei me pegando com o seguinte pensamento: a experiência de qualquer militante de qualquer luta se dá pelo nível de consciência adquirida, bem como pelo que aprende compartilhando a sua experiência com a de outros militantes.
E o tempo passando, as lutas continuando e as experiências se acumulando. Tanto pelo coletivo quanto pela universidade lutamos de novo pelo DCE da UFRGS (novamente, um honroso 3º lugar – acho que sou eu...), contra o REUNI e contra a implementação do Parque Tecnológico da universidade como forma de privatização. Em abril de 2010, depois de alguns tropeços, organizamos a 1ª Assembléia Estadual da ANEL , de onde tiramos encaminhamentos de lutas para a representação gaúcha da entidade, que me orgulho dizer que faço parte da executiva estadual. Pouco depois da assembléia, percebi que, nas discussões, muitos dos meus companheiros de luta tinham um embasamento mais sólido para discutir do que eu (não que isso seja muito difícil). Eu precisava de uma formação mais efetiva, e simplesmente indo atrás de leituras sozinho não seria suficiente. Um dia desses um amigo meu do PSTU me convidou novamente a eu fazer um período de experiência no partido. Dessa vez eu concordei.
Depois de toda esta trova, o que quero dizer é o seguinte: a minha escolha de entrar no partido é pessoal, baseada na minha experiência que não é só militante, mas de vida. E por tudo que passei nessa minha (curta) vida, senti a exploração sobre minhas costas, sobre as costas dos meus pais, amigos, colegas – estudantes do Ensino Público que sofrem com a falta de estrutura da educação brasileira. Pessoas às quais não são dados os seus direitos de alimentação, moradia, educação, saúde, lazer, enfim, tudo aquilo que é necessário para uma pessoa viver neste Brasil. A escolha que fiz é uma escolha de classe, consciente de que sem a vontade firme de reivindicar o que nos é direito, e do governo é um dever, tenho pena do que será legado aos meus filho. (Não gente, não tenho filhos, foi maneira de falar.)
Desde que entrei ao PSTU já se passaram uns 4 meses. Já fui aspirante, agora sou militante pleno. Reúno, discuto, questiono, discordo, de vez em quando faço umas piadas. Mas encaro a luta com toda a seriedade.
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